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01Atuação tributária

O que está em jogo?

Uma exigência fiscal traz um valor, um fundamento e um prazo. O valor alcança o patrimônio. A exigência em aberto pode alcançar a certidão de regularidade fiscal. O prazo ordena a resposta.

PIZANI Advocacia · Direito Tributário

Raphael Pizani, à esquerda, olha para o vale visto do mirante: a encosta, uma plataforma de pedra no meio e, à direita, a estrada em curvas que desce para dentro da garganta.
01O mirante
1PIZANI Advocacia · AtuaçãoO que está em jogo?

O caminho de uma exigência

Em Direito Tributário, o trabalho acompanha a exigência em quatro momentos.

  1. 1Antes da exigênciaO que se examina antes da exigência?Consultoria preventiva
  2. 2A exigência chegaO que a exigência afirma?Exame de exigências fiscais
  3. 3Na administraçãoComo se contesta perante a administração?Defesa administrativa
  4. 4Em juízoQuando a discussão vai a juízo?Atuação judicial

1Consultoria preventiva

Antes de qualquer fiscalização, as perguntas são as mesmas, feitas em outra ordem: que fato a operação produz, que norma o alcança, quem responde por ele, quanto custa e até quando pode ser exigido. A consultoria trata do enquadramento das operações, da escolha do regime de apuração e da base das contribuições sobre a folha de salários.

A reforma tributária do consumo (Emenda Constitucional 132/2023 e Lei Complementar 214/2025) instituiu o IBS, a CBS e o Imposto Seletivo, com regras de transição previstas na própria Constituição. A consultoria examina os efeitos da reforma sobre operações, contratos e preços.

2Exame de exigências fiscais

Autos de infração, notificações de lançamento, intimações e cobranças são examinados antes de qualquer resposta. O exame separa o documento em cinco camadas (fato, norma, sujeito passivo, valor e tempo) e aponta o texto de lei em que cada uma se apoia. O resultado orienta a escolha entre pagar, parcelar, discutir ou combinar essas vias.

Como se examina uma exigência?

Antes de decidir o que fazer, é preciso saber o que a exigência afirma e em que lei se apoia.

3Defesa administrativa

A exigência pode ser contestada perante a própria administração tributária, por impugnação e recursos. No âmbito federal, o julgamento cabe, conforme o caso, às instâncias de julgamento da Receita Federal e ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF). Nos estados e municípios, cabe aos órgãos de julgamento previstos na legislação de cada ente. Nos termos das leis do processo administrativo, as impugnações, os recursos e a manifestação de inconformidade suspendem a exigibilidade do crédito tributário (Código Tributário Nacional, art. 151, III, na redação da Lei Complementar nº 236/2026).

4Atuação judicial

A discussão pode começar no Judiciário ou chegar a ele depois da esfera administrativa. Os instrumentos dependem do momento e do pedido: mandado de segurança, ação declaratória, ação anulatória, embargos à execução fiscal, exceção de pré-executividade e ação de repetição de indébito, para a restituição do que foi pago indevidamente. Cada instrumento tem requisitos próprios de prova, de prazo e, em alguns casos, de garantia.

Parte das questões tributárias nasce de decisões societárias: reorganizações, operações entre empresas do mesmo grupo, responsabilidade de sócios e administradores por débitos da empresa. Nesses pontos, o escritório atua também nas questões de Direito Empresarial ligadas à tributação.

2PIZANI Advocacia · AtuaçãoO caminho de uma exigência

Frentes de atuação

Centro deste escritório, o Direito Tributário encontra outra ordem em cada uma das cinco frentes: o tempo, que extingue o direito de reaver o tributo pago sem dever; o acordo com o Fisco; a liberdade de organizar a empresa; a pena; e o patrimônio de quem dirige a empresa ou lhe sucede. Em todas, a pergunta é tributária antes de ser processual, penal ou societária. A resposta segue o direito vigente em outubro de 2026, que duas leis complementares do mesmo ano mudaram em pontos centrais.

  1. 01Recuperação de crédito tributárioO tributo indevido tem prazo para voltar
  2. 02Transação tributáriaO preço do desconto na transação tributária
  3. 03Planejamento tributárioEvitar o fato gerador, não escondê-lo
  4. 04Direito penal econômicoEntre a dívida e o crime tributário
  5. 05Direito empresarialQuando a dívida da empresa alcança o sócio

O tributo indevido tem prazo para voltar

Recuperação de crédito tributário

Cinco anos contados do pagamento, prazo que o pedido administrativo não interrompe, e duas vias para receber: precatório ou compensação.

O tributo pago sem dever é um crédito do contribuinte contra o Estado, mas o mesmo pagamento que o cria põe a correr o prazo que o extingue. O Código Tributário Nacional dá cinco anos para pedir a restituição, contados “da data da extinção do crédito tributário” (art. 168, I), data que o art. 3º da Lei Complementar 118/2005 situou, nos tributos lançados por homologação, no pagamento antecipado. Luciano Amaro, que vê nessa fórmula um dizer “inadequado”, conta o prazo “do dia do pagamento indevido”.

Esse prazo não espera a administração. Segundo a Súmula 625 do STJ, o pedido administrativo de compensação ou de restituição “não interrompe o prazo” da ação de repetição. O exame começa, por isso, antes de qualquer pedido: qualificar a causa do indébito (art. 165), fixar o termo inicial e, como exige o art. 166 nos tributos que transferem o encargo financeiro, provar quem o assumiu.

A vitória na ação também não devolve o dinheiro. No Tema 1262 da repercussão geral, o STF fixou que não é admissível “a restituição administrativa do indébito reconhecido na via judicial” e exigiu o regime de precatórios. Resta a compensação, que a Súmula 461 do STJ deixa à escolha do contribuinte e o art. 170-A só admite depois do trânsito em julgado. Desde a Lei Complementar 236/2026, os §§ 2º e 3º do art. 168 dão prazo para habilitar perante o Fisco o indébito reconhecido em juízo. São cinco anos, contados da certificação do trânsito. Recuperar o indébito é escolher a via de satisfação enquanto o prazo permite a escolha.

O preço do desconto na transação tributária

Transação tributária

O Estado reduz acréscimos, nunca o principal; o devedor confessa a dívida e renuncia às alegações de direito.

A transação tributária troca a incerteza do litígio pela certeza de um acordo. Essa certeza, porém, se paga em renúncias. O art. 171 do Código Tributário Nacional (CTN) admite a transação quando a lei de cada ente a autoriza, por concessões mútuas e para pôr fim ao litígio. Na lei federal (Lei 13.988/2020, art. 11), os descontos alcançam multas, juros e encargos dos créditos irrecuperáveis ou de difícil recuperação, até 65% do total, em regra, e nunca o principal.

O devedor, em troca, entrega mais do que dinheiro. Pela mesma lei (art. 3º, V, e § 1º), a proposta deferida constitui “confissão irrevogável e irretratável” dos créditos, com renúncia a “quaisquer alegações de direito, atuais ou futuras”. Embora o STJ tenha admitido discutir em juízo os aspectos jurídicos da dívida confessada para parcelar (Tema 375 dos recursos repetitivos), a transação exige renúncia expressa a esses argumentos; por isso, a solução do parcelamento não se transpõe a ela automaticamente.

Em 2026, a Lei Complementar 236 fez da proposta aceita pela administração causa de suspensão da exigibilidade (CTN, art. 151, VIII). A Lei Complementar 225/2026 definiu o devedor contumaz, que o art. 5º, III, da lei federal exclui da transação. Quanto a haver direito à transação, a doutrina diverge. Luciano Amaro nega à autoridade “poderes discricionários”; Leandro Paulsen lhe reconhece um “espaço de discricionariedade”. A lei federal, de sua parte, fala em “juízo de oportunidade e conveniência” (art. 1º, § 1º). A conta da transação põe, de um lado, os acréscimos reduzidos e, do outro, a defesa renunciada.

Evitar o fato gerador, não escondê-lo

Planejamento tributário

A liberdade de escolher o caminho menos oneroso termina onde começa o disfarce do fato que já ocorreu.

Como o tributo incide sobre fatos, planejar é escolher, por meios lícitos, quais fatos acontecem; a evasão disfarça o fato que já aconteceu. Retomando esse critério de Rubens Gomes de Sousa, Luciano Amaro não vê “ilicitude na escolha de um caminho fiscalmente menos oneroso, ainda que a menor onerosidade seja a única razão da escolha desse caminho”.

O STF chegou à mesma fronteira. Na ADI 2.446, julgada em 2022, declarou constitucional o art. 116, parágrafo único, do Código Tributário Nacional, que permite à autoridade desconsiderar atos ou negócios “praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo”, “observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária”. A ementa rotula o dispositivo como norma geral antielisiva; o voto da Relatora, Cármen Lúcia, recusa o rótulo e lê no dispositivo uma “norma de combate à evasão fiscal”. A norma, registra o voto em 2020, “pende, ainda hoje, de regulamentação”.

Essa fronteira não passa pelo propósito negocial, que a norma não menciona. Para Luís Eduardo Schoueri, propósito negocial “não significa a intenção das partes de pagar tributos; é, apenas, a conformidade entre a intenção das partes (motivo do ato) e a causa do negócio jurídico”. Assim, o exame recai sobre a substância e a cronologia dos atos e a coerência dos documentos. Cruzada a fronteira, o lançamento pode vir com multa de até 100% por fraude, sonegação ou conluio dolosos, ou de até 150% na reincidência (CTN, art. 113-A, § 1º). Havendo dolo, fraude ou simulação, a decadência, pelo art. 150, § 5º, deixa de correr do fato gerador.

Entre a dívida e o crime tributário

Direito penal econômico

O tributo é o objeto do crime e a saída dele, que a lei de 2026 fechou ao devedor contumaz.

Deixar de pagar tributo, por si só, não é crime. A Lei 8.137/1990 pune quem suprime ou reduz tributo por condutas como omitir informação ou prestar declaração falsa ao Fisco (art. 1º), mas a Súmula Vinculante 24 condiciona o crime ao lançamento: “Não se tipifica crime material contra a ordem tributária, previsto no art. 1º, incisos I a IV, da Lei nº 8.137/90, antes do lançamento definitivo do tributo”. A pena espera que o tributo exista em definitivo.

A linha entre a dívida e o crime fica mais fina no art. 2º, II, que a súmula não alcança e que pune quem deixa de recolher tributo “descontado ou cobrado”. No RHC 163.334, julgado em 2019, o Plenário do STF exigiu, para que o ICMS cobrado do adquirente e não recolhido configure esse crime, que o contribuinte aja “de forma contumaz e com dolo de apropriação”. O precedente não tem efeito vinculante, mas o STJ o tem aplicado. Contumácia e dolo, que separam a dívida do crime, dependem de prova.

O tributo é também a saída. O pagamento integral extingue a punibilidade (Lei 10.684/2003, art. 9º, § 2º), “a qualquer tempo”, na lição de Leandro Paulsen. A Lei Complementar 225/2026 fechou essa saída ao agente declarado devedor contumaz em decisão administrativa definitiva e inscrito no Cadin; para os atos praticados enquanto ele era contumaz, o fechamento persiste depois que ele deixa de sê-lo. Para esse agente, pagar deixou de encerrar a questão penal; por isso, a defesa começa por saber se ele é, ou pode vir a ser, declarado contumaz.

Quando a dívida da empresa alcança o sócio

Direito empresarial

O inadimplemento não basta; a dissolução irregular pode alcançar quem administrava na data dela; a sucessão transfere também as multas.

Quem deve o tributo é a empresa. O patrimônio de quem a dirige só responde quando a lei dá um título para alcançá-lo. Pelo art. 135 do Código Tributário Nacional, o administrador responde pessoalmente pelo crédito resultante de ato praticado com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto. Na Súmula 430, o STJ fixou: “O inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sócio-gerente”.

O quadro muda com a dissolução irregular, que a Súmula 435 do STJ presume quando a empresa deixa de funcionar no domicílio fiscal sem comunicação aos órgãos competentes. No Tema 981 dos recursos repetitivos, o STJ admitiu redirecionar a execução fiscal contra o sócio ou o terceiro não sócio “com poderes de administração na data em que configurada ou presumida a dissolução irregular”, ainda que não tenha exercido a gerência quando ocorreu o fato gerador. Decide, portanto, a data da dissolução. A Lei Complementar 236/2026 tentou duas mudanças nesse alcance: restringir a solidariedade por interesse comum e exigir processo para responsabilizar terceiros. Os dois pontos foram vetados, veto que, em outubro de 2026, pendia no Congresso.

Na sucessão, outro título faz o passivo seguir a empresa. Pelo art. 132 do Código, a sociedade resultante de fusão, transformação ou incorporação responde pelos tributos das sociedades sucedidas, devidos até a data do ato. Para fatos geradores ocorridos até a sucessão, a Súmula 554 do STJ inclui nessa responsabilidade as multas “moratórias ou punitivas”. A auditoria do passivo e o desenho da operação precedem, assim, a assinatura.

Atendimento

Presencial, na sede em Salvador, ou por videoconferência, com hora marcada.

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Fontes

Legislação

  • Código Tributário Nacional (Lei 5.172/1966), arts. 113-A, § 1º; 116, parágrafo único; 132; 135; 150, § 5º; 151, VIII; 165; 166; 168, I, e §§ 2º e 3º; 170-A; 171. Os arts. 113-A, 150, § 5º, 151, VIII, e 168, §§ 2º e 3º, foram incluídos pela Lei Complementar 236/2026.
  • Lei Complementar 118/2005, art. 3º.
  • Lei Complementar 225/2026, art. 11.
  • Lei Complementar 236/2026; vetos à nova redação do art. 124, I, ao § 4º do art. 142 e ao § 2º do art. 202 do Código Tributário Nacional (Mensagem 743/2026; VET 48/2026, pendente no Congresso Nacional em outubro de 2026).
  • Lei 8.137/1990, arts. 1º e 2º, II.
  • Lei 10.684/2003, art. 9º, §§ 2º a 4º (§§ 3º e 4º incluídos pela Lei Complementar 225/2026).
  • Lei 13.988/2020, arts. 1º, § 1º; 3º, V, e § 1º; 5º, III; 11.

Precedentes

  • STF, Tema 1262 da repercussão geral, RE 1.420.691/SP, Plenário, Rel. Min. Rosa Weber, acórdão de 21/08/2023, trânsito em julgado em 20/02/2026.
  • STF, ADI 2.446/DF, Plenário, Rel. Min. Cármen Lúcia, j. 11/04/2022, DJe 27/04/2022.
  • STF, Súmula Vinculante 24, aprovada em 02/12/2009, DJe 11/12/2009.
  • STF, RHC 163.334/SC, Plenário, Rel. Min. Luís Roberto Barroso, j. 18/12/2019, DJe 13/11/2020.
  • STJ, Tema 375 dos recursos repetitivos, REsp 1.133.027/SP, Primeira Seção, Rel. p/ acórdão Min. Mauro Campbell Marques, j. 13/10/2010, DJe 16/03/2011.
  • STJ, Tema 981 dos recursos repetitivos, REsp 1.645.333/SP, Primeira Seção, Rel. Min. Assusete Magalhães, j. 25/05/2022, DJe 28/06/2022.
  • STJ, Súmulas 430 (DJe 13/05/2010), 435 (j. 14/04/2010), 461 (DJe 08/09/2010), 554 (DJe 15/12/2015) e 625 (DJe 17/12/2018), Primeira Seção.

Doutrina

  • Amaro, Luciano. Direito tributário brasileiro. 23. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019. E-book. Cap. VII, itens 11 e 12; cap. XIII; cap. XIV, item 6.
  • Paulsen, Leandro. Curso de direito tributário completo. 14. ed. São Paulo: SaraivaJur, 2023. E-book. Cap. XXI, item 162.
  • Paulsen, Leandro. Tratado de direito penal tributário brasileiro. São Paulo: SaraivaJur, 2022. E-book. Item 95.
  • Schoueri, Luís Eduardo. Direito tributário. 9. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019. E-book. Cap. XI, item 1.2.
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