Uma exigência fiscal traz um valor, um fundamento e um prazo. O valor alcança o patrimônio. A exigência em aberto pode alcançar a certidão de regularidade fiscal. O prazo ordena a resposta.
PIZANI Advocacia · Direito Tributário
01O mirante
O caminho de uma exigência
Em Direito Tributário, o trabalho acompanha a exigência em quatro momentos.
Antes de qualquer fiscalização, as perguntas são as mesmas, feitas em outra ordem: que fato a operação produz, que norma o alcança, quem responde por ele, quanto custa e até quando pode ser exigido. A consultoria trata do enquadramento das operações, da escolha do regime de apuração e da base das contribuições sobre a folha de salários.
A reforma tributária do consumo (Emenda Constitucional 132/2023 e Lei Complementar 214/2025) instituiu o IBS, a CBS e o Imposto Seletivo, com regras de transição previstas na própria Constituição. A consultoria examina os efeitos da reforma sobre operações, contratos e preços.
2Exame de exigências fiscais
Autos de infração, notificações de lançamento, intimações e cobranças são examinados antes de qualquer resposta. O exame separa o documento em cinco camadas (fato, norma, sujeito passivo, valor e tempo) e aponta o texto de lei em que cada uma se apoia. O resultado orienta a escolha entre pagar, parcelar, discutir ou combinar essas vias.
Antes de decidir o que fazer, é preciso saber o que a exigência afirma e em que lei se apoia.
3Defesa administrativa
A exigência pode ser contestada perante a própria administração tributária, por impugnação e recursos. No âmbito federal, o julgamento cabe, conforme o caso, às instâncias de julgamento da Receita Federal e ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF). Nos estados e municípios, cabe aos órgãos de julgamento previstos na legislação de cada ente. Nos termos das leis do processo administrativo, as impugnações, os recursos e a manifestação de inconformidade suspendem a exigibilidade do crédito tributário (Código Tributário Nacional, art. 151, III, na redação da Lei Complementar nº 236/2026).
4Atuação judicial
A discussão pode começar no Judiciário ou chegar a ele depois da esfera administrativa. Os instrumentos dependem do momento e do pedido: mandado de segurança, ação declaratória, ação anulatória, embargos à execução fiscal, exceção de pré-executividade e ação de repetição de indébito, para a restituição do que foi pago indevidamente. Cada instrumento tem requisitos próprios de prova, de prazo e, em alguns casos, de garantia.
Parte das questões tributárias nasce de decisões societárias: reorganizações, operações entre empresas do mesmo grupo, responsabilidade de sócios e administradores por débitos da empresa. Nesses pontos, o escritório atua também nas questões de Direito Empresarial ligadas à tributação.
Frentes de atuação
Centro deste escritório, o Direito Tributário encontra outra ordem em cada uma das cinco frentes: o tempo, que extingue o direito de reaver o tributo pago sem dever; o acordo com o Fisco; a liberdade de organizar a empresa; a pena; e o patrimônio de quem dirige a empresa ou lhe sucede. Em todas, a pergunta é tributária antes de ser processual, penal ou societária. A resposta segue o direito vigente em outubro de 2026, que duas leis complementares do mesmo ano mudaram em pontos centrais.
Cinco anos contados do pagamento, prazo que o pedido administrativo não interrompe, e duas vias para receber: precatório ou compensação.
O tributo pago sem dever é um crédito do contribuinte contra o Estado, mas o mesmo pagamento que o cria põe a correr o prazo que o extingue. O Código Tributário Nacional dá cinco anos para pedir a restituição, contados “da data da extinção do crédito tributário” (art. 168, I), data que o art. 3º da Lei Complementar 118/2005 situou, nos tributos lançados por homologação, no pagamento antecipado. Luciano Amaro, que vê nessa fórmula um dizer “inadequado”, conta o prazo “do dia do pagamento indevido”.
Esse prazo não espera a administração. Segundo a Súmula 625 do STJ, o pedido administrativo de compensação ou de restituição “não interrompe o prazo” da ação de repetição. O exame começa, por isso, antes de qualquer pedido: qualificar a causa do indébito (art. 165), fixar o termo inicial e, como exige o art. 166 nos tributos que transferem o encargo financeiro, provar quem o assumiu.
A vitória na ação também não devolve o dinheiro. No Tema 1262 da repercussão geral, o STF fixou que não é admissível “a restituição administrativa do indébito reconhecido na via judicial” e exigiu o regime de precatórios. Resta a compensação, que a Súmula 461 do STJ deixa à escolha do contribuinte e o art. 170-A só admite depois do trânsito em julgado. Desde a Lei Complementar 236/2026, os §§ 2º e 3º do art. 168 dão prazo para habilitar perante o Fisco o indébito reconhecido em juízo. São cinco anos, contados da certificação do trânsito. Recuperar o indébito é escolher a via de satisfação enquanto o prazo permite a escolha.
02
O preço do desconto na transação tributária
Transação tributária
O Estado reduz acréscimos, nunca o principal; o devedor confessa a dívida e renuncia às alegações de direito.
A transação tributária troca a incerteza do litígio pela certeza de um acordo. Essa certeza, porém, se paga em renúncias. O art. 171 do Código Tributário Nacional (CTN) admite a transação quando a lei de cada ente a autoriza, por concessões mútuas e para pôr fim ao litígio. Na lei federal (Lei 13.988/2020, art. 11), os descontos alcançam multas, juros e encargos dos créditos irrecuperáveis ou de difícil recuperação, até 65% do total, em regra, e nunca o principal.
O devedor, em troca, entrega mais do que dinheiro. Pela mesma lei (art. 3º, V, e § 1º), a proposta deferida constitui “confissão irrevogável e irretratável” dos créditos, com renúncia a “quaisquer alegações de direito, atuais ou futuras”. Embora o STJ tenha admitido discutir em juízo os aspectos jurídicos da dívida confessada para parcelar (Tema 375 dos recursos repetitivos), a transação exige renúncia expressa a esses argumentos; por isso, a solução do parcelamento não se transpõe a ela automaticamente.
Em 2026, a Lei Complementar 236 fez da proposta aceita pela administração causa de suspensão da exigibilidade (CTN, art. 151, VIII). A Lei Complementar 225/2026 definiu o devedor contumaz, que o art. 5º, III, da lei federal exclui da transação. Quanto a haver direito à transação, a doutrina diverge. Luciano Amaro nega à autoridade “poderes discricionários”; Leandro Paulsen lhe reconhece um “espaço de discricionariedade”. A lei federal, de sua parte, fala em “juízo de oportunidade e conveniência” (art. 1º, § 1º). A conta da transação põe, de um lado, os acréscimos reduzidos e, do outro, a defesa renunciada.
03
Evitar o fato gerador, não escondê-lo
Planejamento tributário
A liberdade de escolher o caminho menos oneroso termina onde começa o disfarce do fato que já ocorreu.
Como o tributo incide sobre fatos, planejar é escolher, por meios lícitos, quais fatos acontecem; a evasão disfarça o fato que já aconteceu. Retomando esse critério de Rubens Gomes de Sousa, Luciano Amaro não vê “ilicitude na escolha de um caminho fiscalmente menos oneroso, ainda que a menor onerosidade seja a única razão da escolha desse caminho”.
O STF chegou à mesma fronteira. Na ADI 2.446, julgada em 2022, declarou constitucional o art. 116, parágrafo único, do Código Tributário Nacional, que permite à autoridade desconsiderar atos ou negócios “praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo”, “observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária”. A ementa rotula o dispositivo como norma geral antielisiva; o voto da Relatora, Cármen Lúcia, recusa o rótulo e lê no dispositivo uma “norma de combate à evasão fiscal”. A norma, registra o voto em 2020, “pende, ainda hoje, de regulamentação”.
Essa fronteira não passa pelo propósito negocial, que a norma não menciona. Para Luís Eduardo Schoueri, propósito negocial “não significa a intenção das partes de pagar tributos; é, apenas, a conformidade entre a intenção das partes (motivo do ato) e a causa do negócio jurídico”. Assim, o exame recai sobre a substância e a cronologia dos atos e a coerência dos documentos. Cruzada a fronteira, o lançamento pode vir com multa de até 100% por fraude, sonegação ou conluio dolosos, ou de até 150% na reincidência (CTN, art. 113-A, § 1º). Havendo dolo, fraude ou simulação, a decadência, pelo art. 150, § 5º, deixa de correr do fato gerador.
04
Entre a dívida e o crime tributário
Direito penal econômico
O tributo é o objeto do crime e a saída dele, que a lei de 2026 fechou ao devedor contumaz.
Deixar de pagar tributo, por si só, não é crime. A Lei 8.137/1990 pune quem suprime ou reduz tributo por condutas como omitir informação ou prestar declaração falsa ao Fisco (art. 1º), mas a Súmula Vinculante 24 condiciona o crime ao lançamento: “Não se tipifica crime material contra a ordem tributária, previsto no art. 1º, incisos I a IV, da Lei nº 8.137/90, antes do lançamento definitivo do tributo”. A pena espera que o tributo exista em definitivo.
A linha entre a dívida e o crime fica mais fina no art. 2º, II, que a súmula não alcança e que pune quem deixa de recolher tributo “descontado ou cobrado”. No RHC 163.334, julgado em 2019, o Plenário do STF exigiu, para que o ICMS cobrado do adquirente e não recolhido configure esse crime, que o contribuinte aja “de forma contumaz e com dolo de apropriação”. O precedente não tem efeito vinculante, mas o STJ o tem aplicado. Contumácia e dolo, que separam a dívida do crime, dependem de prova.
O tributo é também a saída. O pagamento integral extingue a punibilidade (Lei 10.684/2003, art. 9º, § 2º), “a qualquer tempo”, na lição de Leandro Paulsen. A Lei Complementar 225/2026 fechou essa saída ao agente declarado devedor contumaz em decisão administrativa definitiva e inscrito no Cadin; para os atos praticados enquanto ele era contumaz, o fechamento persiste depois que ele deixa de sê-lo. Para esse agente, pagar deixou de encerrar a questão penal; por isso, a defesa começa por saber se ele é, ou pode vir a ser, declarado contumaz.
05
Quando a dívida da empresa alcança o sócio
Direito empresarial
O inadimplemento não basta; a dissolução irregular pode alcançar quem administrava na data dela; a sucessão transfere também as multas.
Quem deve o tributo é a empresa. O patrimônio de quem a dirige só responde quando a lei dá um título para alcançá-lo. Pelo art. 135 do Código Tributário Nacional, o administrador responde pessoalmente pelo crédito resultante de ato praticado com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto. Na Súmula 430, o STJ fixou: “O inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sócio-gerente”.
O quadro muda com a dissolução irregular, que a Súmula 435 do STJ presume quando a empresa deixa de funcionar no domicílio fiscal sem comunicação aos órgãos competentes. No Tema 981 dos recursos repetitivos, o STJ admitiu redirecionar a execução fiscal contra o sócio ou o terceiro não sócio “com poderes de administração na data em que configurada ou presumida a dissolução irregular”, ainda que não tenha exercido a gerência quando ocorreu o fato gerador. Decide, portanto, a data da dissolução. A Lei Complementar 236/2026 tentou duas mudanças nesse alcance: restringir a solidariedade por interesse comum e exigir processo para responsabilizar terceiros. Os dois pontos foram vetados, veto que, em outubro de 2026, pendia no Congresso.
Na sucessão, outro título faz o passivo seguir a empresa. Pelo art. 132 do Código, a sociedade resultante de fusão, transformação ou incorporação responde pelos tributos das sociedades sucedidas, devidos até a data do ato. Para fatos geradores ocorridos até a sucessão, a Súmula 554 do STJ inclui nessa responsabilidade as multas “moratórias ou punitivas”. A auditoria do passivo e o desenho da operação precedem, assim, a assinatura.
Atendimento
Presencial, na sede em Salvador, ou por videoconferência, com hora marcada.
Código Tributário Nacional (Lei 5.172/1966), arts. 113-A, § 1º; 116, parágrafo único; 132; 135; 150, § 5º; 151, VIII; 165; 166; 168, I, e §§ 2º e 3º; 170-A; 171. Os arts. 113-A, 150, § 5º, 151, VIII, e 168, §§ 2º e 3º, foram incluídos pela Lei Complementar 236/2026.
Lei Complementar 118/2005, art. 3º.
Lei Complementar 225/2026, art. 11.
Lei Complementar 236/2026; vetos à nova redação do art. 124, I, ao § 4º do art. 142 e ao § 2º do art. 202 do Código Tributário Nacional (Mensagem 743/2026; VET 48/2026, pendente no Congresso Nacional em outubro de 2026).
Lei 8.137/1990, arts. 1º e 2º, II.
Lei 10.684/2003, art. 9º, §§ 2º a 4º (§§ 3º e 4º incluídos pela Lei Complementar 225/2026).
Lei 13.988/2020, arts. 1º, § 1º; 3º, V, e § 1º; 5º, III; 11.
Precedentes
STF, Tema 1262 da repercussão geral, RE 1.420.691/SP, Plenário, Rel. Min. Rosa Weber, acórdão de 21/08/2023, trânsito em julgado em 20/02/2026.
STF, ADI 2.446/DF, Plenário, Rel. Min. Cármen Lúcia, j. 11/04/2022, DJe 27/04/2022.
STF, Súmula Vinculante 24, aprovada em 02/12/2009, DJe 11/12/2009.
STF, RHC 163.334/SC, Plenário, Rel. Min. Luís Roberto Barroso, j. 18/12/2019, DJe 13/11/2020.
STJ, Tema 375 dos recursos repetitivos, REsp 1.133.027/SP, Primeira Seção, Rel. p/ acórdão Min. Mauro Campbell Marques, j. 13/10/2010, DJe 16/03/2011.
STJ, Tema 981 dos recursos repetitivos, REsp 1.645.333/SP, Primeira Seção, Rel. Min. Assusete Magalhães, j. 25/05/2022, DJe 28/06/2022.
STJ, Súmulas 430 (DJe 13/05/2010), 435 (j. 14/04/2010), 461 (DJe 08/09/2010), 554 (DJe 15/12/2015) e 625 (DJe 17/12/2018), Primeira Seção.